01h40. A equipa ZULU, composta por fuzileiros e comandos, larga das LFGs Dragão e Cassiopeia em dez botes pneumáticos. Durante o trajecto, alguns botes são travados por redes de pesca que não tinham sido vistas, provocando algum atraso. Chegada a terra, às 02h15, a equipa divide-se em três grupos.
Um dos grupos, comandado pelo 1º tenente Cunha e Silva, tem como objectivo a prisão nos arredores da cidade onde o PAIGC mantém os prisioneiros de guerra portugueses. Um deles é o tenente António Lobato, piloto da FAP que, após uma aterragem de emergência no seu T-6G, foi feito prisioneiro do PAIGC em 1963. Durante os sete anos de cativeiro, o mais antigo prisioneiro de guerra português protagonizou duas tentativas de evasão que estiveram perto do sucesso. A sua experiência está descrita no seu livro «Liberdade ou Evasão»:
“O matraquear longínquo de metralhadoras disparando com frenesim, interfere no meu sono de forma quase onírica. Ora o oiço com mais intensidade, dando a ideia de aproximação, ora se cala por instantes, ora fica reduzido a uma surdina, como se as armas estivessem dotadas de silenciadores. Este ciclo sonoro de altos, baixos e stacatos, prolonga-se o tempo suficiente para que eu tome consciência de que não estou a sonhar e de que algo de mais sério está a acontecer.
A primeira ideia que me ocorre é a de mais uma tentativa de golpe de Estado contra o sanguinário Sékou Touré, na sequência de tantas outras de que fui tendo conhecimento ao longo dos anos.
A imaginação galopa no escuro das duas ou três da manhã e alicia-me com a vitória dos incógnitos golpistas, a quem eu agradeço adiantadamente a minha libertação.
Entretanto as metralhadoras não se calam e ouvem-se cada vez mais próximas. A acuidade sensorial torna-se tão intensa que a certeza de que aquelas armas se dirigem à prisão, é um dado adquirido.
Consola-me o pensamento de que num golpe de Estado, uma das coisas que realmente se deve fazer é libertar os prisioneiros.
Não tenho tempo de continuar com as minhas fantasias: um enorme estrondo no tecto da prisão abafa o tiroteio que agora é mais intenso, mesmo aqui atrás de mim.
Instintivamente atiro-me para o chão, procuro uma esquina para melhor me abrigar e aqui fico deitado de bruços protegendo a cabeça com os braços. Fico poucos segundos nesta posição: um dilagrama ou uma bazuca, rebentam a janela condenada da minha masmorra. O tiroteio continua, mas ao crepitar das armas sobrepõe-se uma voz que grita: «Lobato!»
A mesma acuidade sensorial que em situações limite nunca me abandonou e sempre despoleta em mim forças de que normalmente não tenho consciência, diz-me que é gente nossa e catapulta-me para o exterior através do rombo aberto na parede pelo explosivo.
Mal assento os pés no solo, alguém que sai do meio da noite adivinha quem eu sou e pergunta-me onde estão os outros.
Com ele e o seu pequeno grupo damos a volta ao edifício, fazendo exactamente o mesmo percurso que fiz no dia da minha chegada a esta casa e indico-lhes a porta da sala onde estão empilhados vinte e três soldados portugueses. Num abrir e fechar de olhos a porta é arrombada e os vinte e três prisioneiros, jovens de vinte anos, na total ignorância do que está a acontecer, não saem de imediato. É preciso que os elementos do grupo atacante entrem na sala para apressar a saída.
Com todos reunidos no espaço que servia de recreio, o comandante encarrega-me de manter toda a gente em coluna até chegarmos ao destino, que não revela.
No momento da partida, um dos soldados recusa-se a acompanhar-nos, mas a espontânea reacção de todos, impede-o de manifestar uma segunda vez a sua intenção. Trata-se de um desertor em quem nem o inimigo acreditou.”
Ao todo, são 26 os prisioneiros portugueses libertados, e que caminham na direcção da praia em silêncio, guiados e escoltados pelo grupo de assalto. No caminho são atacados por militares guineenses, que são rechaçados e postos em fuga pelos fuzileiros. Até que atingem a praia:
“Mantendo a marcha acelerada, acabamos por chegar a uma praia onde embarcamos em botes de borracha rumo ao alto mar. Em breves minutos acostamos a um navio ancorado a escassas milhas da costa e faz-se o nosso transbordo.
São cerca de quatro e meia da manhã. Os tripulantes da LFG Dragão não escondem a sua alegria ao receberem-nos a bordo, mas ao mesmo tempo não disfarçam um piedoso espanto perante a nossa magreza. Marinheiros até aos ossos, reagem a este pormenor distribuindo comida e bebidas.
Alguém que suponho ser o comandante, retira-me do grupo e leva-me com ele para outra zona do navio. Daí a pouco, aparece um marinheiro com um enorme bife que coloca na minha frente.”
O segundo grupo de assalto da equipa Zulu, composto por comandos e comandado pelo sub-tenente Falcão Lucas, tem como objectivo atacar o quartel-general do PAIGC na cidade. No assalto às instalações, neutraliza uma série de sentinelas, abate vários elementos do PAIGC, e destroi os 5 edifícios e ainda 6 viaturas que se encontravam no recinto.
O terceiro grupo de assalto, composto por 21 fuzileiros e um guia do FLNG comandados pelo 2º tenente Benjamim Abreu, tem como objectivo a Villa Silly, a residência secundária de Sékou Touré, para o eliminar fisicamente, e o Campo da Milícia Popular de Conakry, 100 metros adiante. A Villa Silly é composta por duas casas (a residência propriamente dita e a casa dos guardas) e, ao aproximar-se do objectivo, o grupo divide-se em duas secções de ataque (uma para cada casa) e uma secção de protecção. As duas sentinelas são abatidas à porta, sem sequer terem tempo de usar as suas pistolas-metralhadoras PPSh, que são recolhidas. Uma secção, chefiada pelo sub-tenente Falcão Lucas, penetra sucessivamente em todas as divisões da residência, sem encontrar ninguém. Nem sequer havia indícios de ocupação nessa noite, estando a casa arrumada e as camas ainda feitas. Sékou Touré não está onde é suposto. As casas são destruídas com tiros de bazuca e granadas de mão, provocando um incêndio. Também é destruído o automóvel particular do ditador guineense.
O grupo prossegue para o Campo da Milícia Popular, a cem metros. Os 22 homens penetram no recinto transpondo um muro de dois metros de altura para evitarem a detecção. Inicia-se o ataque com dois disparos de RPG-2 contra as duas casernas, causando vários mortos e feridos, e um curto-circuito que originou um incêndio. De seguida, os fuzileiros assaltaram o interior das casernas com granadas de mão defensivas. As tropas no interior tentam montar uma oposição, sem sucesso, perante o poder de fogo dos fuzileiros que, reforçados por uma bazuca e um lançador de RPG-2, estão armados com uma dezena de metralhadoras RPD Degtyarev, para além das AK-47. Três automóveis e um motociclo transportando oito milicianos irrompem pelo campo dentro, mas logo são parados pela metralha, morrendo todos os ocupantes e incendiando-se os veículos. Um camião GMC é destruído com duas granadas defensivas. Uma das sentinelas no portão principal faz fogo mas acaba por ser dominada e capturada a sua pistola-metralhadora.
Depois de reagrupados, os 22 homens abandonam o local para se reunirem ao grupo de assalto do 1º tenente Cunha e Silva. Para trás fica o Campo da Milícia Popular de Conakry em chamas e no seu interior 60 milicianos fora de combate, 30 deles mortos. Caminhados apenas 50 metros são detectados três soldados inimigos, que são abatidos. Ainda de dentro do campo tenta sair um automóvel Volkwagen que é destruído e abatido o seu condutor. Os documentos deste são consultados, concluindo-se que se trata de um cidadão da República Federal da Alemanha.
Apesar dos bons resultados, dos três objectivos desta equipa falha um: encontrar e eliminar Sékou Touré. Mas os prisioneiros foram libertados, o quartel-general do PAIGC destruído, e o Campo da Milícia muito atingido. Apesar dos duros combates (sobretudo na prisão de La Montaigne, no quartel-general do PAIGC e no Campo da Milícia) esta equipa não sofreu qualquer morto ou ferido. Reembarcada pelas 04h30, a equipa ZULU passa a constituir a reserva de manobra do Comandante da operação.
01h05. De bordo da LDG Bombarda, a 300 jardas da praia Peronné, comandada pelo capitão-tenente Aguiar de Jesus (com uma calma imperturbável, fumando o seu cigarro descontraídamente), largam dois botes com a equipa HOTEL, com a missão de capturar a rádio de Boubinet. A equipa é constituída por 9 comandos, sob as ordens do alferes Jamanca, e inclui um elemento do FLNG, o engenheiro electrónico Tidiane Diallo, que conhece o local. Incompreensivelmente, uma vez desembarcada, a equipa não sai da praia. Ou por desorientação do engenheiro guineense ou por indecisão do oficial, a equipa não saíu do local de desembarque até que recebeu ordem de reembarcar. No entanto, a rádio acabará por ser atingida.
Entretanto duas vagas de botes de borracha colocam em terra as restantes equipas da Bombarda: ALFA, BRAVO, CHARLIE, DELTA, ECHO, FOXTROT e GOLF. Todas as equipas, compostas por comandos e FLNG, seguem para os respectivos objectivos, orientadas – nem sempre bem – pelos guias do Front. Os objectivos são instalações governamentais, que são tomados sem dificuldade. Só no quartel da Gendarmerie é encontrada resistência significativa.
Ao chegar ao local, a equipa ECHO, comandada pelo capitão João Bacar, e reforçada pelas GOLF, BRAVO e DELTA, num total de 50 homens, demora a reagrupar o pessoal, e uma coluna blindada de gendarmes prepara-se para sair. Os veículos são atacados, ficando 4 destruídos e o inimigo sofrendo um grande número de baixas.
A equipa ALFA, formada por dez elementos, aproxima-se do Palácio Presidencial, sendo vista pelos guardas, que fogem a grande velocidade. A equipa revista o interior do grande edifício não encontrando ninguém.
01h40. Vinda da LFG Hidra, a equipa SIERRA desembarca dos botes pneumáticos. É composta por pára-quedistas e comandos (38) e elementos do FLNG (6), sob o comando do capitão Lopes Morais, dos pára-quedistas. O seu objectivo é o aeroporto que serve também de base à Força Aérea da Guiné Conakry, para destruir os caças Mig e assegurar que não existirá uma ameaça aérea a toda a operação. Um dos elementos do Front é um antigo controlador de tráfego aéreo deste aeroporto. Começam-se a ouvir rebentamentos por toda a cidade ainda antes de iniciar a progressão para o objectivo. Esta é feita a um ritmo apressado, imposto pelo comandante, apesar dele próprio estar com um joelho lesionado, resultado de um salto de pára-quedas recente. A dado momento, o capitão Lopes Morais sente alguma resistência ao andamento nos militares que o seguem mais atrás e manda um dos seus homens investigar o porquê. Às 02h00, comunica para a LFG Hidra:
"02h00 - O filho da puta do tenente fugiu com 20 dos meus homens: traiu-me miseravelmente. "
É a deserção do tenente Januário e dos homens que o acompanham, que irão ao encontro das forças do PAIGC para manifestarem a sua vontade de aderirem ao movimento. E assim cai por terra um dos objectivos principais da operação: agora é impossível desmentir o envolvimento de Portugal nos acontecimentos. Todo o esforço de dissimulação de forças e equipamentos foi em vão. E é também um rude golpe para a equipa SIERRA, que assim se vê reduzida a metade da sua dimensão.
A bordo da LFG Orion, o comandante Alpoim Calvão ordena ao navio para mudar de posição, juntando-se à LDG Bombarda e à LFG Hidra, e manda desembarcar a equipa PAPA, que tem por missão cortar o istmo que separa Conakry I de Conakry II.
A equipa SIERRA continua em direcção ao objectivo. Do aeroporto, por rádio, o capitão Lopes Morais vai informando a Hidra:
"02h15 – Estou junto objectivo. Aeroporto rodeado arame farpado.
02h25 – Percorri a pista e não vi nenhum Mig."
Entretanto, ouvem-se toques de clarins e ruídos de motores no vizinho campo militar Alpha Ya-ya.
"02h28 – Estou a ouvir o barulho das autometralhadoras a passarem."
Ressentindo-se do seu joelho, o capitão Lopes Morais fica com três homens a meio do taxi-way e manda o alferes Justo e o 2º sargento Teixeira procurarem os Mig. Voltam vinte minutos depois, informando que no fim da pista estão três aviões a hélice velhos e que há outra pista, em terra batida, ao lado da principal. O capitão volta para trás e aproxima-se da placa, onde estão dois aviões Caravelle, da Air Afrique, e quatro Fokker F-27 Friendship. O alferes Justo quis destruí-los, mas o capitão Morais não autorizou.
"02h30 – Percorri os hangares e não se encontram lá Mig nenhuns.
03h00 – Informo que estou rodeado por dois blindados e muitas tropas."
Da LFG Orion, Alpoim Calvão manda a equipa SIERRA regressar ao local de desembarque.
A esta mesma hora é comunicado desde as equipas em terra que, segundo os soldados feitos prisioneiros, os Mig foram enviados para o aeródromo de Labé no dia 20, devido a uma remodelação ministerial. Uma falha da intelligence.
Este é um grave revés para a operação já que a segurança das forças será seriamente comprometida pela possível entrada em acção dos MIG. As únicas armas anti-aéreas disponíveis são os canhões Bofors de 40mm que equipam as lanchas. Num espaço aéreo limitado como é o caso, com 10 canhões até há razoáveis hipóteses de atingir os aviões, mas os navios são alvos fáceis para um ataque aéreo. Alpoim Calvão dá ainda ordem à equipa SIERRA para destruir a pista antes de retirar, mas já não têm o morteiro e as minas de fragmentação para o poder fazer. A equipa reembarca na Hidra pelas 04h15.
Falhada a destruição dos Mig, subsistia ainda a esperança de se encontrar Sékou Touré.
Às 04h30, a maior parte das equipas já tinha concluído a sua missão e estava reembarcada, exceptuando as forças do FLNG que ficariam no terreno. A situação era a seguinte:
- Domínio do mar assegurado
- Objectivos do PAIGC atingidos na maior parte
- Prisioneiros de guerra libertados
- Domínio em terra ainda em disputa, mas com forte possibilidade de sucesso (já tinha toda a equipa Zulu disponível como reserva e breve todo o DFE 21 também)
- Sékou Touré não encontrado
- Migs não encontrados e domínio do ar não assegurado.
Este era o factor mais importante e o risco de um ataque aéreo demasiado grave para ser corrido. Não se poderia consentir que algum navio fosse afundado. Além disso, era importante evitar que algum vestígio português fosse deixado (na altura não era sabido que o alferes Januário tencionava juntar-se ao PAIGC). O comandante Alpoim Calvão toma a decisão de dar a operação por concluída, ordenando o regresso das equipas aos navios assim que as suas missões estejam cumpridas. Também pesa na decisão o desenrolar dos acontecimentos do lado do FLNG: não só este movimento não tinha a implantação que dizia ter, como o levantamento a nível nacional não se tinha verificado. As forças portuguesas tinham feito a sua parte, causando grandes danos ao regime comunista de Sékou Touré, e deixado o FLNG numa situação muito favorável para tomar o poder na capital. Os elementos do Front que querem reembarcar com as forças portuguesas fazem-no. Outros optam por ficar e continuar o combate.
Às 05h00 só falta reembarcar algumas equipas da LDG Montante. Assim sendo, é dada ordem à formação TU 27-2-1, constituída pela LFG Hidra e LDG Bombarda, para retirar o mais depressa possível da zona de acção.
Às 6h00, é ordenado às LFGs Cassiopeia e Dragão para colaborarem com a Montante no reembarque do pessoal ainda em terra.
Com o nascer do sol, em todos os navios as posições anti-aéreas passam a postos de combate. Começa um novo dia, muito especial para os recém-libertados prisioneiros portugueses, como recorda António Lobato:
"Entretanto o dia aí está, à vista de todos, cheio de sol.
Atrás de nós o mar imenso, à frente, uma enorme baía, fronteira entre a cidade e o mar. Conakry, a capital do terror, está ali, a nossos pés, implorando clemência para não ser mais violada."