Autor Tópico: História Militar Portuguesa  (Lida 5103 vezes)

Lobo

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História Militar Portuguesa
« em: Janeiro 01, 2009, 22:10:23 pm »
Boas,

A História Militar estrangeira é amplamente divulgada pela industria cinematografica.
Assim são criadas e divulgadas "modas", "herois" e "modelos".
Um bom exemplo é a Guerra do Vietnam.
Certamente que muitos dos nossos jogadores saberão mais a respeito desse conflito do que por exemplo a respeito das Campanhas Africanas entre 1961 e 1974.
Desta forma este Post "História Militar Portuguesa" procurará dar a conhecer diversos episódios da nossa história militar e servir de base para futuras reencenações por intermédio de jogos, equipamentos, etc.
Seria optimo poder contar com mais alguns entusiastas pela nossa história para enriquecer este Post.
[/b]

Um abraço
Lobo
Com.Sub.Air


Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #1 em: Janeiro 01, 2009, 22:13:44 pm »
Operação Ametista Real
Guiné Bissau – Maio de 1973


RELATO OFICIAL:

Munições consumidas pela Companhia de Caçadores 19:
7,62 mm (espingarda) ..... 32000
Granadas de mão ofensivas
e defensivas 40
Granadas de morteiro ........760
Granadas-foguete 6 em .....120
Granadas-foguete 8,9 em ....50
Munições de artilharia disparadas
no dia 17 (10,5 em) ...............43

O agravamento da situação em Guidaje, particularmente a partir de 8 de Maio; as notícias de grandes movimentações de tropas do PAIGC junto à fronteira com o Senegal, a dificuldade de reforçar e apoiar por terra aquela guarnição dada a resistência encontrada pelas colunas que para ali se dirigiam, e a existência de vários feridos que não podiam ser evacuados para os hospitais pelas limitações de emprego de meios aéreos, levaram o comandante-chefe a lançar uma operação de grande envergadura para envolver as forças do PAIGC que atacavam Guidaje e aliviar a pressão sobre aquela guarnição militar que permitisse reabastecê-la, retirar os feridos e substituir pessoal.
Esta tarefa foi atribuída ao Batalhão de Comandos da Guiné, que recebeu a missão de «aniquilar ou, no mínimo, desarticular a organização lN na região de Guidaje-Bigene».
As forças executantes, num total de cerca de 450 homens, foram assim organizadas:

Comandante da operação - Major Almeida Bruno.

Agrupamento Romeu
- 1.ª Companhia de Comandos, Capitão António Ramos.
Agrupamento Bombox
- 2.ª Companhia de Comandos, Capitão Matos Gomes.
Agrupamento Centauro
3.ª Companhia de Comandos, Capitão Raul Folques.

As forças do batalhão de comandos saíram em 18 de Maio de Bissau numa LDG, apoiadas
por duas LFG, e desembarcaram em Ganturé nessa tarde. Depois de um briefing em Bigene,
saíram pelas 23 e 50 para norte, pela seguinte ordem: agrupamentos Bombox, Centauro e
Romeu.
Pelas 5 e 30, de 19 de Maio, a testa da coluna alcançou o itinerário que apoiava a base de
Cumbamori, objectivo principal da operação. O agrupamento Bombox passou para norte da
estrada, o agrupamento Centauro ocupou posições a sul e o agrupamento Romeu instalou-se
à retaguarda, numa pequena povoação.
Ás 8 e 20 iniciou-se o ataque aéreo com aviões Fiat G-91, que destruíram os paióis da base,
tendo as munições explodido durante algum tempo.
Às 9 e 05 o agrupamento Bombox executou o assalto inicial, provocando o primeiro contacto
com as forças do PAIGC. Estes combates desenrolaram-se até às 14 e 10, quando o
comandante da operação deu ordem para o agrupamento Centauro apoiar uma ruptura de
contacto entre as suas forças e as do PAIGC. Foi uma operação de grande dificuldade, porque
os combatentes de um e outro lado se encontravam muito próximos. O comandante do
agrupamento Centauro foi ferido, mas conseguiu realizar essa separação.
Às 14 e 30 o batalhão de comandos iniciou-se o movimento para a base de recolha e às 18
e 20 os seus primeiros elementos chegaram a Guidaje. Em 20 de Maio, o mesmo batalhão
saiu de Guidaje para Sinta, a pé, deixando ali os seus feridos e os militares que não se
encontravam em condições de prosseguir a marcha. Em Sinta, embarcou numa LDG de
regresso a Bissau.
Nesta operação, o batalhão de comandos sofreu dez mortos, 22 feridos graves e três
desaparecidos, estimando ter causado 67 mortos, entre os quais, segundo informação mais
tarde obtida no Senegal, uma médica e um cirurgião cubanos e quatro elementos mauritanos.

Durante a acção, as forças do batalhão de comandos consumiram as seguintes munições:
7,62 mm (G-3) ......................... 26700
7,62 mm (Kalash) .................... 4600
Granadas de lança-granadas-foguete de 6 e 8,9 em 292
Granadas de RPG-2 e RPG-7 71
Granadas de morteiro............... 195
Granadas de mão ofensivas e defensivas 268

Testemunho do Major Almeida Bruno:

“A operação mais importante que comandei foi, no entanto, na Guiné. O nome de código foi Ametista Real - eu sempre dei nomes de pedras preciosas às operações que comandei. Penso que, na altura, foi a operação de maior envergadura daquele tipo, fora do território nacional. Comandava então o Batalhão de Comandos Africanos que foi, julgo, uma das unidades que ganharam o Guião de Mérito, um estandarte especial que penso só ter sido também atribuído à unidade do então Capitão de Infantaria Maurício Saraiva, meu grande amigo. De qualquer modo esses guiões estão hoje na Amadora.

A 16 de Maio de 1973 fui chamado de urgência ao Comandante-Chefe; o então general António de Spínola, que me traçou um panorama geral da guarnição militar de Guidage, junto à fronteira com o Senegal. Estava isolada por terra por causa dos fortíssimos campos de minas lançados pelo inimigo. As colunas logísticas, enquadradas por forças pára-quedistas, não conseguiram romper. Era difícil o reabastecimento aéreo e a evacuação de feridos, por causa dos mísseis terra ar Strella de que dispunha o PAIGC. E era grande o desgaste físico e psicológico da guarnição.

Tudo indicava que o inimigo pretendia lançar um assalto final a Guidage para tirar dividendos internos e externos. E, por isso, era necessário aliviar a pressão: o único caminho possível era pelo Norte, pelo território senegalês.

A missão foi dada de forma clara e simples: atacar a base inimiga de Kumbamory, que ficava uns cinco quilómetros a norte da fronteira. Era preciso, no mínimo, desarticular o dispositivo inimigo. Se possível, destruir a base ou, pelo menos, causar o maior número possível de baixas e destruir a maior quantidade possível de material.

Foi decidido transportar a força, em meios navais, de Bissau para Bigene. E lançar depois uma operação de curta duração, em terra, por forma a atacar a base inimiga a partir de uma base de ataque já instalada em território senegalês. "Limpar", por fim, a região de acesso a Guidage, recolhendo as nossas forças a essa povoação.

O apoio de fogos ficaria a cargo de seis baterias fixas de 10,5 e de heli-canhões. Verificou-se que não eram possíveis reabastecimentos e evacuações por helicóptero. Os mortos e os feridos teriam de ser transportados para Guidage sem meios auxiliares, e a haver reabastecimento de munições ele teria de ser feito nos paióis inimigos detectados. Nada se sabia quanto à localização exacta do objectivo, a não ser que era na área da povoação senegalesa de Kumbamory.

Na tarde de 19 de Maio o batalhão embarcou para Bigene, onde chegou pouco antes do pôr-do-sol. Foram constituídos três agrupamentos, com uma companhia de comandos cada um. Eram comandados pelos capitães Raúl Folques (que ficaria gravemente ferido) e Matos Gomes e pelo capitão pára-quedista António Ramos. Este comandava o agrupamento a que ficou adstrito o grupo especial comandado pelo alferes Marcelino da Mata, especializado em demolições.

Nele me integrei, o batalhão entrou em território senegalês pelas seis da manhã do dia 20. A artilharia de Bigene concentrava entretanto o seu fogo sobre o objectivo, mais como manobra de diversão do que como forma de destruição, uma vez que não era conhecida com rigor a localização da base inimiga. Hora e meia depois os agrupamentos estavam dispostos na base de ataque, a sul da povoação senegalesa.
Foi necessário cortar a estrada que corria paralela à fronteira e «reter» o comandante de um batalhão de pára-quedistas senegalês que chegara entretanto em missão de reconhecimento. A conversa entre mim e ele foi cordial e amistosa. E franca, claro. O comandante senegalês sabia perfeitamente da existência da base do PAIGC, mas argumentava que ela ficava em território português. Pedia assim que abandonássemos rapidamente o Senegal e garantia que não iria haver nenhum incidente diplomático. E não houve.

Pelas oito horas a Força Aérea iniciou um pesado bombardeamento, a que se seguiu o assalto. Um pouco à sorte, já que não se sabia onde ficava a base. E a sorte foi decisiva.

Quase de imediato os dois agrupamentos que iam à frente detectaram vários depósitos de material de guerra. O terceiro agrupamento, que estava em reserva e logo deixou de estar, envolveu-se em violento combate com um forte grupo inimigo que dispunha de canhões sem recuo e de metralhadoras pesadas: defendia o depósito principal, o de foguetões de 122 mm.

Não é fácil descrever a acção.

A tónica principal deve ter sido a confusão, não só a própria da batalha, como a decorrente do facto de se enfrentarem adversários da mesma cor e com armamento semelhante, e de ser impossível delimitar claramente a frente. E foi nesta grande confusão que o posto de comando aéreo teve um papel decisivo: os agrupamentos, correndo embora o risco de serem referenciados, iam indicando a sua posição com sinais pirotécnicos.
 
Pela rádio, o posto de comando aéreo ia-me informando do movimento das tropas. Pelo meio-dia, a missão estava cumprida.

O agrupamento, que era comandado pelo Capitão Folques ficou, a dada altura, praticamente sem munições. Foi então dada ordem de retirada, o que equivalia a continuar na direcção de Guidage. Foi um movimento lento, interrompido por vários e violentos combates, até que, pelas quatro da tarde, o inimigo abandonou o terreno.
 
Pelas seis da tarde as nossas tropas chegaram a Guidage. Depois continuaram a pé, até serem recolhidas, no dia seguinte, pela Marinha de Guerra, no rio Cacheu.
 
Os resultados conseguidos foram assinaláveis e foi aliviada a pressão sobre Guidage, cuja guarnição militar recuperou a iniciativa depois de rendidos os seus efectivos.

Não é sem uma ponta de orgulho que me vejo forçado a afirmar que nesta operação ficou patente o alto espírito agressivo dos Comandos Africanos, a sua capacidade excepcional de orientação na selva e a sua invulgar resistência física. Ficou também patente que os quatro oficiais europeus que comandaram a acção foram decisivos nos momentos mais difíceis, sobretudo pelo bom senso e capacidade de decisão que revelaram.

O inimigo sofreu 67 mortos. As nossas tropas 14 mortos (dos quais dois alferes), onze desaparecidos, mais tarde confirmados como mortos, e 23 feridos graves (dos quais três oficiais e sete sargentos). Ao inimigo foram destruídos 22 depósitos de material de guerra.”

Outro Testemunho:

No início de 1973, o aquartelamento português em Guidage, no Norte da Guiné, a escassas centenas de metros da fronteira com o Senegal, vivia dias terríveis. A guarnição, à volta de 200 homens, e uma pequena aldeia foram cercadas por 700 guerrilheiros comandados por Francisco Mendes e Manuel dos Santos.
 As tropas da guerrilha começaram por cortar todos os acessos a Guidage pelo sul: ocuparam a zona com numerosa força de combatentes e instalaram ao redor um vasto campo de minas.

Unidades de pára-quedistas não conseguiam romper os anéis de cerco e só entre 8 e 10 Maio sofreram 13 mortos e 41 feridos. Apenas no da 12 uma coluna de reabastecimento protegida por dois destacamentos de fuzileiros especiais conseguiu alcançar Guidage.

Um avião T6 de ataque e dois Dornier 27 foram abatidos por mísseis Strella. A artilharia pesada do PAIGC flagelava o quartel sem sossego. Os feridos não podiam ser evacuados e os mortos eram enterrados ali mesmo. Guidage era então o inferno à face da terra. As forças do PAIGC eram reabastecidas pelo Norte, a partir de base de Kumbamory, no Senegal – o que lhes permitia manter o cerco por tempo indeterminado. A situação era desesperante.

O comandante-chefe da Guiné, general António Spínola, sabia que só a destruição de Kumbamory permitiria pôr fim ao cerco a Guidage. Mas a operação era difícil e de resultados imprevisíveis. O ataque ao Senegal foi atribuído ao Batalhão de Comandos Africanos, comandado pelo então major Almeida Bruno – que tinha por hábito atribuir às acções militares o nome de pedras preciosas: esta ficou ‘Operação Ametista Real’.

Na tarde de 19 de Maio de 1973, uma sexta-feira, 450 homens do Batalhão de Comandos Africanos embarcam em lanchas da Marinha e sobem o rio Cachéu até Bigene, onde chegam ao pôr-do-sol. A força de ataque segue dividida em três grupos de combate: o Agrupamento Romeu, comandado pelo capitão pára-quedista António Ramos (já falecido); o Agrupamento Centauro, sob o comando do capitão Raul Folques (hoje, coronel); e o Agrupamento Bombox, comandado pelo capitão Matos Gomes (actualmente, coronel).

O comandante da operação, Almeida Bruno, seguiu integrado no Agrupamento Romeu, que levava um grupo especial comandado por Marcelino da Mata – guineense de etnia papel, uma autêntica máquina de guerra que só receava duas coisas: não se sentia à vontade em lanchas e em helicópteros.

A força de ataque acampa em Bigene ao pôr-do-sol, cerca das cinco da tarde, e à meia-noite inicia a marcha, a pé, a caminho do norte. Os combatentes caminham a pé durante a madrugada. Pisam território senagalês cerca das seis da manhã do dia 20, sábado. Levam material de guerra capturado ao PAIGC em operações anteriores – como espingardas automáticas Kalashnikov, granadas de mão e granadas-foguete.

Às oito em ponto uma esquadrilha de aviões Fiat inicia pesado bombardeamento da zona. Os pilotos atacam um pouco às cegas, porque a exacta localização da base da guerrilha não é conhecida. Mas quis a sorte que as bombas da aviação acertassem em cheio em paióis inimigos. Mal cessou o ataque aéreo, que não terá demorado mais do que dez minutos, os grupos comandados por Matos Gomes e Raul Folques lançam-se no assalto – enquanto o Agrupamento Romeu, comandado por António Ramos e onde seguia o comandante da operação, Almeida Bruno, toma posição como força de reserva

« Última modificação: Janeiro 01, 2009, 22:34:00 pm por Lobo »

Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #2 em: Janeiro 01, 2009, 22:15:27 pm »

Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #3 em: Janeiro 03, 2009, 04:19:20 am »
A FANTÁSTICA OPERAÇÃO MAR VERDE
Guiné Bissau / Guiné Conakry
Novembro de 1970


17 de Novembro.
No mesmo dia em que Lisboa dá a luz verde, o general Spínola dá conhecimento aos Comandantes Chefes Adjuntos da ordem de operações para a Operação Mar Verde.
O Exército reforça e põe de alerta as suas unidades junto da fronteira com a Guiné-Conakry.
Por seu lado, a Força Aérea prepara missões de reconhecimento e apoio ao grupo de navios envolvidos, e missões de bombardeamento de objectivos do PAIGC na Guiné-Conakry, que seriam atacados caso o golpe tivesse êxito.

18 de Novembro.
A Força Aérea inicia as missões de reconhecimento das águas da Guiné-Conakry, do porto da capital e suas aproximações, com um avião de patrulha marítima Lockheed P2-V5 Neptune, de forma a detectar movimentos de navios de guerra, mercantes e concentrações de navios de pesca.
Às 09h00 desse dia a missão das forças na ilha de Soga é comunicada oralmente aos comandantes: a operação não é na ilha de Como mas sim um desembarque na capital da Guiné Conakry.
Confirma-se que o sigilo que envolveu a preparação da operação foi mantido: nos briefings finais, dois oficiais, um do Exército e outro da Marinha, mostrar-se-iam muito cépticos quanto à sua execução.
O do Exército recusou-se a participar e foi-lhe dada voz de prisão e levado para Bissau de helicóptero. Mas Spínola e Calvão acabariam por convencê-lo, e regressaria à ilha de Soga.

Dia 19 de Novembro,
Calvão regressa de Lisboa e parte logo para a ilha onde se fazem os últimos preparativos.
Também nesse dia, a Força Aérea informa de que não existem navios de guerra nas águas da Guiné Conakry, e que um P2-V5 fez escuta das comunicações da torre de controle do aeroporto de Conakry, não se registando tráfego de aviões militares.
Aos homens da força de desembarque, portugueses e opositores guineenses, são distribuídas as novas armas e uniformes.
Os navios envolvidos são pintados para se dissimularem todos os sinais que os indiquem como portugueses. Até as bóias de salvação. São quatro LFGs (da classe Argos), Cassiopeia, Dragão, Hidra e Orion (navio-chefe), e duas LDGs , a Bombarda (da classe do seu nome) e a Montante (da classe Alfange). Compõem a força-tarefa TG27-2.

LFG (Lancha de Fiscalização Grande) Orion, da classe Argos, num rio da Guiné
Deslocamento: 210 toneladas; Dimensões (em metros): 41,7 x 6,7 x 2,1; Armamento: 2 canhões Bofors 40mm/70, metralhadoras 7,62mm e granadas de dilagrama; Propulsão: 2 motores diesel Maybach Tunel MD 440/12 accionando dois hélices, totalizando 2400cv; Velocidade: 17,3 nós; Autonomia: 1660 milhas náuticas; Tripulação: 24. Os navios desta classe usados na Guiné eram parcialmente blindados.

LDG Montante, da classe Alfange, na Guiné
Deslocamento: 480 toneladas; Dimensões, em metros: 56,54 x 11,8 x 1,27; Armamento: 2 canhões Bofors 40mm/70, metralhadoras 7,62mm e granadas de dilagrama; Capacidade de Transporte: 270 toneladas; Propulsão: 2 motores diesel Maybach-Mercedes Benz accionando dois hélices, totalizando 910cv; Velocidade: 10,3 nós; Autonomia: 2860 milhas náuticas; Tripulação: 20. A Bombarda é muito semelhante, com canhões Oerlikon 20mm em vez dos Bofors 40mm.

As equipas são distribuídas pelos navios:

Nas LFGs Dragão e Cassiopeia são embarcadas as equipas que irão atacar os objectivos do PAIGC, eliminar Sékou Touré na sua residência, a Villa Silly, e o campo de milícias do PDG. São formadas por fuzileiros reforçados por comandos.

Na LDG Bombarda segue parte dos FLNG, enquadrados por Comandos. São as equipas que atacarão o Palácio Presidencial, Ministério do Interior, a comando da Gendarmerie, residências dos dirigentes Lansana Beavogui e Sayfoulhah Djallo, quartel da Gendarmerie, quartel dos conselheiros militares cubanos, a rádio de Boulbinet e o istmo que divide as duas partes da cidade, impedindo a passagem de reforços vindos de outras instalações militares.

Na LDG Montante segue o restante da força do FLNG, com as equipas destinadas a atacar a central eléctrica, o estado-maior da forças armadas da Guiné Conakry (Campo Samory) e a Guarda Republicana.

Na LFG Hidra segue a equipa que irá destruir os Mig baseados no aeroporto de Conakry.

Na LFG Orion está o comando da operação e a equipa que atacará as lanchas da Guiné Conakry e do PAIGC.

A força de desembarque totaliza 400 homens e as equipas agiriam segundo a sequência de controlo do mar (destruição das lanchas), de terra (neutralização das forças principais e corte do isto) e do ar (destruição dos Mig antes do amanhecer; os navios tinham uma capacidade anti-aérea muito reduzida). Também era prioritária a captura da rádio Boulbinet (a emissora mais escutada) logo no início das operações.

Dia 20 de Novembro, sexta-feira.
Pela manhã, a força é visitada pelo comandante-chefe e governador da Guiné, general António de Spínola.
Às 19h50, a força-tarefa TG 27-2 larga da ilha de Soga e reúne-se no ponto de rendez-vous, junto à ilha de Canhambaque. Às 22h00, hora H, segue em coluna para Sudeste, com luzes ocultadas, e postos de combate anti-aéreo a partir do nascer do sol.

Dia 21 de Novembro.
Navega desta forma até às 03h50 do dia 21 de Novembro, quando a força adopta uma disposição mais adequada, em dois grupos (main body e screen, distando 4 a 6 milhas entre si), manobrando de forma a evitar o tráfego marítimo e seguindo as indicações de um P2-V5 da Força Aérea. Apenas um navio, o arrastão Banko, não se consegue evitar que passe próximo da Montante, devido à lenta velocidade desta.
Às 17h50 a força volta a navegar em coluna, aproveitando a proximidade da noite. Aproxima-se de Conakry, onde chega sem percalços, e às 20h45 é avistado o farol da ilha de Tâmara e ordenado o split da formação, seguindo os navios individualmente para as posições de onde serão lançadas as equipas de desembarque.
Às 21h30, o comando (na Orion) indica a hora até à qual todos os desembarques serão efectuados para de seguida dar a ordem de ataque para todas as equipas: 01h30 do dia seguinte.

Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #4 em: Janeiro 03, 2009, 04:23:31 am »
00h45 de Domingo, 22 de Novembro de 1970.
Maré completamente cheia, nenhum vento.


A força está dividida em três grupos, a Sul (LDG Bombarda e LFG Hidra), Norte (LDG Montante, LFGs Cassiopeia e Dragão) e a Norte-Noroeste (LFG Orion) de Conakry.

 A equipa VICTOR, composta por 14 fuzileiros especiais e um guia da FLNG, comandados pelo 2º tenente Rebordão de Brito, larga da Orion em três botes pneumáticos Zebro III, com motores de 50cv, na direcção do molhe de La Prudence, que protege o porto interior, a meia milha de distância. Chegados junto do molhe, o Cmdt Rebordão de Brito trepa para cima da construção para fazer uma observação pormenorizada do porto. Mas o que vê com o binóculo é a silhueta de algo muito diferente de pequenas lanchas: uma fragata. Sabendo-se que a Marinha da URSS costuma usar o porto de Conakry, não há dúvidas a quem pertence o navio.

Uma fragata soviética seria mais que suficiente para afundar as lanchas portuguesas e tornar a operação num desastre. Raciocinando rapidamente, o experiente oficial caboverdiano vira-se para um dos seus homens e diz: «Olha, temos ali uma fragata à frente, nós somos apenas catorze, não temos hipótese de sobreviver, vamos lançar-nos ao ataque da fragata, direitos aos aquartelamentos da guarnição e rebentamos com tudo o que seja possível. Já sabemos que não saímos de lá vivos, mas ao menos deixamos as nossas unidades actuar à vontade». Enquanto isto, o guia guineense começa a afiar uma enorme faca nas pedras do molhe. Rebordão de Brito opta conscientemente por uma missão suicida, na esperança de poder danificar a fragata nos órgãos vitais o suficiente para pôr o navio fora de acção.

A ordem de ataque é dada à 01h40, desde a Orion. A equipa VICTOR lança-se nos botes ao assalto. À medida que se aproxima, em vez da silhueta da fragata vão aparecendo duas silhuetas de lancha sobrepostas no prolongamento (a popa de uma e a proa de outra) que ao longe pareciam ser um navio muito maior. No porto estão afinal três lanchas P6, quatro Komar e uma lancha de desembarque do PAIGC. O assalto prossegue. O grumete fuzileiro especial Abou Camara apunhala silenciosamente a sentinela que guarda as três lanchas P6. A equipa sobe a bordo dos navios e, pelas portas das cobertas, atira granadas de mão ofensivas para o interior, provocando incêndios a bordo. A primeira explosão e o tiroteio são escutados a bordo da Orion às 01h55. Os ocupantes são eliminados e o fuzileiros correm para junto das outras lanchas. Soa o alarme no porto e o inimigo abre fogo desde o interior dos navios, com armas ligeiras e granadas de mão, e de terra com uma metralhadora pesada, instalada no telhado de um armazém junto à doca. Posicionados em pontos estratégicos, os fuzileiros eliminam a resistência causando baixas ao inimigo. As Komar são destruídas da mesma maneira, com granadas de mão atiradas para o interior das lanchas. Eliminados os focos de resistência, a equipa VICTOR retoma os botes pneumáticos e dirige-se de regresso para a Orion, onde chega às 02h10.

Sofrendo apenas um ferido ligeiro, a equipa de 15 homens tinha destruído sete lanchas (três afundadas e quatro incendiadas) e abatido 15 a 20 combatentes inimigos. Em resultado dos incêndios, as lanchas, com mísseis, torpedos, munições e combustível a bordo, explodem em bolas de fogo que são vistas de bordo da Orion. O primeiro objectivo da Operação Mar Verde está atingido e a cidade de Conakry acorda ao som de explosões.

Por esta altura já todas as equipas estão colocadas no terreno.
Da LDG Montante são lançadas as equipas OSCAR, INDIA e MIKE.

A OSCAR é constituída por 40 homens, comandos portugueses e do FLNG, comandados pelos alferes Ferreira e Tomás Camarã, desembarca junto ao quartel da Guarda Republicana, às 01h35, a partir de botes pneumáticos. Esta força constitui a elite das Forças Armadas da Guiné Conakry, treinada por conselheiros militares checoslovacos, e a principal guarda pretoriana do regime. Cinco dos homens dirigem-se discretamente para o portão da entrada mas mesmo assim são detectados pela sentinela, que o alferes Ferreira tenta dominar, mas que se refugia na casa de guarda. Na perseguição, o alferes é abatido na soleira da porta por uma rajada disparada por outros dois homens que se encontram no interior, e que abrem nutrido fogo sobre o grupo assaltante. Corajosamente, o furriel comando Marcelino da Mata atira-se pela janela para dentro da casa e abate a tiro os ocupantes. A equipa OSCAR irrompe pelo recinto posicionando-se na enfiada da saída das casernas. Os guardas republicanos, apanhados de surpresa, tentam fugir mas a maioria é abatida, enquanto alguns conseguem desaparecer na noite. O quartel está nas mãos da equipa OSCAR, que liberta cerca de 400 presos políticos que ali estavam encarcerados, e que celebraram efusivamente a sua libertação. Muitos deles pegam em armas para se juntar ao golpe. No final da acção, o quartel é deixado à guarda de 20 homens do Front.

Por seu turno, as equipas INDIA e MIKE são desembarcadas directamente da LDG Montante para terra. Às 01h40, a lancha abica ao molhe do Yacht Club as equipas prosseguem para os objectivos. Nesta altura, já se ouve o tiroteio no porto e, baixada a rampa da LDG, os assustados homens do FLNG hesitam em sair. O alferes Sisseco, dos Comandos Africanos, ordena aos seus homens para desembarcarem e assim darem o exemplo e convencerem os camaradas do Front a ganharem coragem e irem para o combate, o que resulta.

A equipa INDIA, constituída por 10 comandos chefiados pelo furriel Demda Sêca e acompanhados por um elemento do FLNG, atravessam a linha de caminho de ferro Conakry-Fria e dirigem-se para a central eléctrica. Eliminadas duas das sentinelas, os comandos penetram na instalação prendendo o encarregado, que obrigam a cortar a electricidade à cidade. Às 02h15, os habitantes de Conakry, que tinham sido acordados por explosões e tiros, viam agora a sua cidade ficar às escuras. Era um importante efeito psicológico e contribuía para a desorientação das Forças Armadas da Guiné Conakry, que tinham sido apanhadas completamente de surpresa. Mas, inesperadamente, os próprios guias da FLNG (nem sempre competentes) acabariam também eles por ficar por vezes desorientados na cidade às escuras.

A equipa MIKE, composta por 15 comandos e 35 FLNG, estes sob o comando do major Thierne Diallo, dirige-se para o Campo Militar de Samory, a um quilómetro. Nesta instalação está armazenada uma grande quantidade de material valioso do Exército da Guiné Conakry e é preciso capturá-lo para impedir os soldados governamentais de o usarem. A equipa progride na direcção do objectivo sem dificuldade. Quando está a cem metros do campo, um “jipão” do Exército da Guiné Conakry, transportando feridos, aproxima-se e é mandado parar. O condutor indica o Campo Samory, mas tenta fugir com a viatura e é abatido. Os comandos aproximam-se das traseiras do campo, verificam que a porta está aberta e o alferes Sisseco manda avançar os elementos do FLNG. Uma secção avança no interior do recinto em direcção ao portão principal. De uma torre, uma metralhadora Breda faz fogo, mas é calada por um disparo de RPG-2 feito pelos comandos. Depois de ter rebentado com um portão mais pequeno com uma granada ofensiva, abre o portão principal. Nesta altura já não há resistência no Campo Samory, e é montado o dispositivo de defesa.

Uma dificuldade inesperada é que os rádios ficaram fora de acção, e os contactos com as outras equipas têm agora de ser feitos directamente. No recinto está armazenada uma grande quantidade de armas e veículos, incluindo 15 blindados ligeiros de reconhecimento, 50 jipes e mais de 100 camiões GMC. Também se encontram quantidades enormes de metralhadoras pesadas, bazucas, morteiros, pistolas-metralhadoras, espingardas Kalashnikov e Simonov, e muitas munições. Incendeiam-se os edifícios do Estado Maior. Mas entretanto vão chegando militares governamentais que procuram entrar no campo para ali se armarem.

Durante três horas e meia, o campo é defendido pelos comandos. O soldado comando Mamadu Saliu Diallo revela-se um exímio apontador de RPG-2, destruindo sozinho 16 veículos governamentais que chegam carregados de pessoal, e assim matando algumas dezenas de soldados inimigos. Em contrapartida, constata-se a falta de coragem e inabilidade em combate dos elementos do FLNG, pelo que têm de ser os comandos a fazer o maior esforço. Em resultado do tiroteio, a equipa de comandos conta já com dois mortos e seis feridos (incluindo o comandante), alguns dos quais feitos por um disparo de RPG-2 mal executado pelos homens do Front. Assim sendo, e cumprida que está a missão de captura do campo, o alferes Sisseco divide a equipa MIKE. Os comandos portugueses irão retirar, enquanto os homens do FLNG, comandados pelo major Thierne Diallo, e acompanhados pelo comandante Assad e pelo jornalista da revista «Jeune Afrique» Siradiou Diallo, montam a defesa seguindo as instruções do oficial português, para posteriormente juntarem-se à equipa INDIA.

Regressando ao Yacht Club, os comandos são interceptados por um camião GMC cheio de soldados guineenses, que saltam para terra e começam a fazer fogo. O pequeno grupo de comandos portugueses divide-se para a esquerda e para a direita, respondendo ao fogo do inimigo. O próprio alferes Sisseco dispara um tiro de RPG-2 apontado ao depósito de combustível da GMC, destruindo o veículo e pondo os soldados inimigos em fuga. Nesta acção, um dos comandos feridos volta a ser atingido numa perna. Chegado ao cais, o grupo é recuperado por botes pneumáticos, tendo sofrido dois mortos, dois feridos graves e quatro ligeiros, incluindo o comandante. A missão da equipa MIKE está completa, tendo causado um número estimado de cerca de 100 mortos ao inimigo.


Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #5 em: Janeiro 03, 2009, 04:26:36 am »
01h40. A equipa ZULU, composta por fuzileiros e comandos, larga das LFGs Dragão e Cassiopeia em dez botes pneumáticos. Durante o trajecto, alguns botes são travados por redes de pesca que não tinham sido vistas, provocando algum atraso. Chegada a terra, às 02h15, a equipa divide-se em três grupos.

Um dos grupos, comandado pelo 1º tenente Cunha e Silva, tem como objectivo a prisão nos arredores da cidade onde o PAIGC mantém os prisioneiros de guerra portugueses. Um deles é o tenente António Lobato, piloto da FAP que, após uma aterragem de emergência no seu T-6G, foi feito prisioneiro do PAIGC em 1963. Durante os sete anos de cativeiro, o mais antigo prisioneiro de guerra português protagonizou duas tentativas de evasão que estiveram perto do sucesso. A sua experiência está descrita no seu livro «Liberdade ou Evasão»:

“O matraquear longínquo de metralhadoras disparando com frenesim, interfere no meu sono de forma quase onírica. Ora o oiço com mais intensidade, dando a ideia de aproximação, ora se cala por instantes, ora fica reduzido a uma surdina, como se as armas estivessem dotadas de silenciadores. Este ciclo sonoro de altos, baixos e stacatos, prolonga-se o tempo suficiente para que eu tome consciência de que não estou a sonhar e de que algo de mais sério está a acontecer.
A primeira ideia que me ocorre é a de mais uma tentativa de golpe de Estado contra o sanguinário Sékou Touré, na sequência de tantas outras de que fui tendo conhecimento ao longo dos anos.
A imaginação galopa no escuro das duas ou três da manhã e alicia-me com a vitória dos incógnitos golpistas, a quem eu agradeço adiantadamente a minha libertação.
Entretanto as metralhadoras não se calam e ouvem-se cada vez mais próximas. A acuidade sensorial torna-se tão intensa que a certeza de que aquelas armas se dirigem à prisão, é um dado adquirido.
Consola-me o pensamento de que num golpe de Estado, uma das coisas que realmente se deve fazer é libertar os prisioneiros.
Não tenho tempo de continuar com as minhas fantasias: um enorme estrondo no tecto da prisão abafa o tiroteio que agora é mais intenso, mesmo aqui atrás de mim.
Instintivamente atiro-me para o chão, procuro uma esquina para melhor me abrigar e aqui fico deitado de bruços protegendo a cabeça com os braços. Fico poucos segundos nesta posição: um dilagrama ou uma bazuca, rebentam a janela condenada da minha masmorra. O tiroteio continua, mas ao crepitar das armas sobrepõe-se uma voz que grita: «Lobato!»
A mesma acuidade sensorial que em situações limite nunca me abandonou e sempre despoleta em mim forças de que normalmente não tenho consciência, diz-me que é gente nossa e catapulta-me para o exterior através do rombo aberto na parede pelo explosivo.
Mal assento os pés no solo, alguém que sai do meio da noite adivinha quem eu sou e pergunta-me onde estão os outros.  
Com ele e o seu pequeno grupo damos a volta ao edifício, fazendo exactamente o mesmo percurso que fiz no dia da minha chegada a esta casa e indico-lhes a porta da sala onde estão empilhados vinte e três soldados portugueses. Num abrir e fechar de olhos a porta é arrombada e os vinte e três prisioneiros, jovens de vinte anos, na total ignorância do que está a acontecer, não saem de imediato. É preciso que os elementos do grupo atacante entrem na sala para apressar a saída.
Com todos reunidos no espaço que servia de recreio, o comandante encarrega-me de manter toda a gente em coluna até chegarmos ao destino, que não revela.
No momento da partida, um dos soldados recusa-se a acompanhar-nos, mas a espontânea reacção de todos, impede-o de manifestar uma segunda vez a sua intenção. Trata-se de um desertor em quem nem o inimigo acreditou.”

Ao todo, são 26 os prisioneiros portugueses libertados, e que caminham na direcção da praia em silêncio, guiados e escoltados pelo grupo de assalto. No caminho são atacados por militares guineenses, que são rechaçados e postos em fuga pelos fuzileiros. Até que atingem a praia:

“Mantendo a marcha acelerada, acabamos por chegar a uma praia onde embarcamos em botes de borracha rumo ao alto mar. Em breves minutos acostamos a um navio ancorado a escassas milhas da costa e faz-se o nosso transbordo.
São cerca de quatro e meia da manhã. Os tripulantes da LFG Dragão não escondem a sua alegria ao receberem-nos a bordo, mas ao mesmo tempo não disfarçam um piedoso espanto perante a nossa magreza. Marinheiros até aos ossos, reagem a este pormenor distribuindo comida e bebidas.
Alguém que suponho ser o comandante, retira-me do grupo e leva-me com ele para outra zona do navio. Daí a pouco, aparece um marinheiro com um enorme bife que coloca na minha frente.”


 O segundo grupo de assalto da equipa Zulu, composto por comandos e comandado pelo sub-tenente Falcão Lucas, tem como objectivo atacar o quartel-general do PAIGC na cidade. No assalto às instalações, neutraliza uma série de sentinelas, abate vários elementos do PAIGC, e destroi os 5 edifícios e ainda 6 viaturas que se encontravam no recinto.

 O terceiro grupo de assalto, composto por 21 fuzileiros e um guia do FLNG comandados pelo 2º tenente Benjamim Abreu, tem como objectivo a Villa Silly, a residência secundária de Sékou Touré, para o eliminar fisicamente, e o Campo da Milícia Popular de Conakry, 100 metros adiante. A Villa Silly é composta por duas casas (a residência propriamente dita e a casa dos guardas) e, ao aproximar-se do objectivo, o grupo divide-se em duas secções de ataque (uma para cada casa) e uma secção de protecção. As duas sentinelas são abatidas à porta, sem sequer terem tempo de usar as suas pistolas-metralhadoras PPSh, que são recolhidas. Uma secção, chefiada pelo sub-tenente Falcão Lucas, penetra sucessivamente em todas as divisões da residência, sem encontrar ninguém. Nem sequer havia indícios de ocupação nessa noite, estando a casa arrumada e as camas ainda feitas. Sékou Touré não está onde é suposto. As casas são destruídas com tiros de bazuca e granadas de mão, provocando um incêndio. Também é destruído o automóvel particular do ditador guineense.
O grupo prossegue para o Campo da Milícia Popular, a cem metros. Os 22 homens penetram no recinto transpondo um muro de dois metros de altura para evitarem a detecção. Inicia-se o ataque com dois disparos de RPG-2 contra as duas casernas, causando vários mortos e feridos, e um curto-circuito que originou um incêndio. De seguida, os fuzileiros assaltaram o interior das casernas com granadas de mão defensivas. As tropas no interior tentam montar uma oposição, sem sucesso, perante o poder de fogo dos fuzileiros que, reforçados por uma bazuca e um lançador de RPG-2, estão armados com uma dezena de metralhadoras RPD Degtyarev, para além das AK-47. Três automóveis e um motociclo transportando oito milicianos irrompem pelo campo dentro, mas logo são parados pela metralha, morrendo todos os ocupantes e incendiando-se os veículos. Um camião GMC é destruído com duas granadas defensivas. Uma das sentinelas no portão principal faz fogo mas acaba por ser dominada e capturada a sua pistola-metralhadora.
Depois de reagrupados, os 22 homens abandonam o local para se reunirem ao grupo de assalto do 1º tenente Cunha e Silva. Para trás fica o Campo da Milícia Popular de Conakry em chamas e no seu interior 60 milicianos fora de combate, 30 deles mortos. Caminhados apenas 50 metros são detectados três soldados inimigos, que são abatidos. Ainda de dentro do campo tenta sair um automóvel Volkwagen que é destruído e abatido o seu condutor. Os documentos deste são consultados, concluindo-se que se trata de um cidadão da República Federal da Alemanha.

 Apesar dos bons resultados, dos três objectivos desta equipa falha um: encontrar e eliminar Sékou Touré. Mas os prisioneiros foram libertados, o quartel-general do PAIGC destruído, e o Campo da Milícia muito atingido. Apesar dos duros combates (sobretudo na prisão de La Montaigne, no quartel-general do PAIGC e no Campo da Milícia) esta equipa não sofreu qualquer morto ou ferido. Reembarcada pelas 04h30, a equipa ZULU passa a constituir a reserva de manobra do Comandante da operação.

01h05. De bordo da LDG Bombarda, a 300 jardas da praia Peronné, comandada pelo capitão-tenente Aguiar de Jesus (com uma calma imperturbável, fumando o seu cigarro descontraídamente), largam dois botes com a equipa HOTEL, com a missão de capturar a rádio de Boubinet. A equipa é constituída por 9 comandos, sob as ordens do alferes Jamanca, e inclui um elemento do FLNG, o engenheiro electrónico Tidiane Diallo, que conhece o local. Incompreensivelmente, uma vez desembarcada, a equipa não sai da praia. Ou por desorientação do engenheiro guineense ou por indecisão do oficial, a equipa não saíu do local de desembarque até que recebeu ordem de reembarcar. No entanto, a rádio acabará por ser atingida.

Entretanto duas vagas de botes de borracha colocam em terra as restantes equipas da Bombarda: ALFA, BRAVO, CHARLIE, DELTA, ECHO, FOXTROT e GOLF. Todas as equipas, compostas por comandos e FLNG, seguem para os respectivos objectivos, orientadas – nem sempre bem – pelos guias do Front. Os objectivos são instalações governamentais, que são tomados sem dificuldade. Só no quartel da Gendarmerie é encontrada resistência significativa.

Ao chegar ao local, a equipa ECHO, comandada pelo capitão João Bacar, e reforçada pelas GOLF, BRAVO e DELTA, num total de 50 homens, demora a reagrupar o pessoal, e uma coluna blindada de gendarmes prepara-se para sair. Os veículos são atacados, ficando 4 destruídos e o inimigo sofrendo um grande número de baixas.

 A equipa ALFA, formada por dez elementos, aproxima-se do Palácio Presidencial, sendo vista pelos guardas, que fogem a grande velocidade. A equipa revista o interior do grande edifício não encontrando ninguém.

01h40. Vinda da LFG Hidra, a equipa SIERRA desembarca dos botes pneumáticos. É composta por pára-quedistas e comandos (38) e elementos do FLNG (6), sob o comando do capitão Lopes Morais, dos pára-quedistas. O seu objectivo é o aeroporto que serve também de base à Força Aérea da Guiné Conakry, para destruir os caças Mig e assegurar que não existirá uma ameaça aérea a toda a operação. Um dos elementos do Front é um antigo controlador de tráfego aéreo deste aeroporto. Começam-se a ouvir rebentamentos por toda a cidade ainda antes de iniciar a progressão para o objectivo. Esta é feita a um ritmo apressado, imposto pelo comandante, apesar dele próprio estar com um joelho lesionado, resultado de um salto de pára-quedas recente. A dado momento, o capitão Lopes Morais sente alguma resistência ao andamento nos militares que o seguem mais atrás e manda um dos seus homens investigar o porquê. Às 02h00, comunica para a LFG Hidra:

"02h00 - O filho da puta do tenente fugiu com 20 dos meus homens: traiu-me miseravelmente. "

É a deserção do tenente Januário e dos homens que o acompanham, que irão ao encontro das forças do PAIGC para manifestarem a sua vontade de aderirem ao movimento. E assim cai por terra um dos objectivos principais da operação: agora é impossível desmentir o envolvimento de Portugal nos acontecimentos. Todo o esforço de dissimulação de forças e equipamentos foi em vão. E é também um rude golpe para a equipa SIERRA, que assim se vê reduzida a metade da sua dimensão.

A bordo da LFG Orion, o comandante Alpoim Calvão ordena ao navio para mudar de posição, juntando-se à LDG Bombarda e à LFG Hidra, e manda desembarcar a equipa PAPA, que tem por missão cortar o istmo que separa Conakry I de Conakry II.

A equipa SIERRA continua em direcção ao objectivo. Do aeroporto, por rádio, o capitão Lopes Morais vai informando a Hidra:

"02h15 – Estou junto objectivo. Aeroporto rodeado arame farpado.
 02h25 – Percorri a pista e não vi nenhum Mig."

Entretanto, ouvem-se toques de clarins e ruídos de motores no vizinho campo militar Alpha Ya-ya.

"02h28 – Estou a ouvir o barulho das autometralhadoras a passarem."

 Ressentindo-se do seu joelho, o capitão Lopes Morais fica com três homens a meio do taxi-way e manda o alferes Justo e o 2º sargento Teixeira procurarem os Mig. Voltam vinte minutos depois, informando que no fim da pista estão três aviões a hélice velhos e que há outra pista, em terra batida, ao lado da principal. O capitão volta para trás e aproxima-se da placa, onde estão dois aviões Caravelle, da Air Afrique, e quatro Fokker F-27 Friendship. O alferes Justo quis destruí-los, mas o capitão Morais não autorizou.

"02h30 – Percorri os hangares e não se encontram lá Mig nenhuns.
 03h00 – Informo que estou rodeado por dois blindados e muitas tropas."

 Da LFG Orion, Alpoim Calvão manda a equipa SIERRA regressar ao local de desembarque.

 A esta mesma hora é comunicado desde as equipas em terra que, segundo os soldados feitos prisioneiros, os Mig foram enviados para o aeródromo de Labé no dia 20, devido a uma remodelação ministerial. Uma falha da intelligence.

 Este é um grave revés para a operação já que a segurança das forças será seriamente comprometida pela possível entrada em acção dos MIG. As únicas armas anti-aéreas disponíveis são os canhões Bofors de 40mm que equipam as lanchas. Num espaço aéreo limitado como é o caso, com 10 canhões até há razoáveis hipóteses de atingir os aviões, mas os navios são alvos fáceis para um ataque aéreo. Alpoim Calvão dá ainda ordem à equipa SIERRA para destruir a pista antes de retirar, mas já não têm o morteiro e as minas de fragmentação para o poder fazer. A equipa reembarca na Hidra pelas 04h15.

Falhada a destruição dos Mig, subsistia ainda a esperança de se encontrar Sékou Touré.

Às 04h30, a maior parte das equipas já tinha concluído a sua missão e estava reembarcada, exceptuando as forças do FLNG que ficariam no terreno. A situação era a seguinte:

- Domínio do mar assegurado

- Objectivos do PAIGC atingidos na maior parte

- Prisioneiros de guerra libertados

- Domínio em terra ainda em disputa, mas com forte possibilidade de sucesso (já tinha toda a equipa Zulu disponível como reserva e breve todo o DFE 21 também)

- Sékou Touré não encontrado

- Migs não encontrados e domínio do ar não assegurado.

 
Este era o factor mais importante e o risco de um ataque aéreo demasiado grave para ser corrido. Não se poderia consentir que algum navio fosse afundado. Além disso, era importante evitar que algum vestígio português fosse deixado (na altura não era sabido que o alferes Januário tencionava juntar-se ao PAIGC). O comandante Alpoim Calvão toma a decisão de dar a operação por concluída, ordenando o regresso das equipas aos navios assim que as suas missões estejam cumpridas. Também pesa na decisão o desenrolar dos acontecimentos do lado do FLNG: não só este movimento não tinha a implantação que dizia ter, como o levantamento a nível nacional não se tinha verificado. As forças portuguesas tinham feito a sua parte, causando grandes danos ao regime comunista de Sékou Touré, e deixado o FLNG numa situação muito favorável para tomar o poder na capital. Os elementos do Front que querem reembarcar com as forças portuguesas fazem-no. Outros optam por ficar e continuar o combate.

Às 05h00 só falta reembarcar algumas equipas da LDG Montante. Assim sendo, é dada ordem à formação TU 27-2-1, constituída pela LFG Hidra e LDG Bombarda, para retirar o mais depressa possível da zona de acção.

Às 6h00, é ordenado às LFGs Cassiopeia e Dragão para colaborarem com a Montante no reembarque do pessoal ainda em terra.

Com o nascer do sol, em todos os navios as posições anti-aéreas passam a postos de combate. Começa um novo dia, muito especial para os recém-libertados prisioneiros portugueses, como recorda António Lobato:

"Entretanto o dia aí está, à vista de todos, cheio de sol.

Atrás de nós o mar imenso, à frente, uma enorme baía, fronteira entre a cidade e o mar. Conakry, a capital do terror, está ali, a nossos pés, implorando clemência para não ser mais violada."


Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #6 em: Janeiro 03, 2009, 04:27:32 am »
Manhã de 22 de Novembro.
Na baía de Conakry, os navios esperam as últimas tropas a reembarcar.
A bordo da Montante, as tropas descansam, com a cidade atacada ao longe.
Às 07h40, de uma posição próxima ao Palácio do Povo, são disparados quatros tiros de morteiro de 82mm na direcção da Montante, muito mal apontados. A LFG Dragão muda de posição, interpondo-se entre a Montante e terra para fazer de escudo ao pessoal que reembarca, e os dois navios fazem fogo de 40mm sobre a posição em terra. Quatro tiros são suficientes para não mais os navios serem atacados.
Às 08h05, a Dragão encosta à Orion para receber material de transfusão de sangue destinado aos feridos, e transferir o piloto António Lobato:

            "A Dragão, movida por uma ordem emanada do invisível, começa a deslocar-se cautelosamente em direcção a outro navio fundeado aqui bem perto. Magistralmente manobrada, coloca-se em posição de facilitar o meu transbordo. Ajudado pela mão vigorosa de um marinheiro, passo para bordo do navio que venho a saber chamar-se Orion. É daqui que emanam todas as ordens para as forças em campo, como foi daqui que saiu a ordem para o meu transbordo.

            Sou imediatamente conduzido ao cérebro da Operação Mar Verde. Na ponte de comando, o Capitão-Tenente Alpoim Calvão perscruta o céu com o olhar apreensivo, consciente de que sobre si pesa toda a responsabilidade pelas vidas de quatro centenas de homens, pelo regresso de sete navios ao país e pelo sucesso da operação. Ao aperceber-se da minha presença, felicita-me calorosamente, mas dir-se-ia que estava à minha espera apenas para me fazer uma pergunta que tempere a sua justa apreensão: «Os Mig’s, não aparecem?...»

            Por força da minha profissão que é simultaneamente o meu ideal, durante todos estes anos de cativeiro, estive naturalmente atento aos ruídos do céu. Em tanto tempo, menos de meia dúzia de vezes me foi dado ouvir o silvo característico das turbinas de um caça. Em duas dessas vezes, por ocasião de visitas de Sékou Touré à região, pude observar, através das grades da cela nº7 do Forte de Kindia, uma parelha de Mig’s voando muito alto e efectuando manobras muito suaves. Não é normal este tipo de voo quando se acompanha a visita de um Presidente e muito menos quando esse Presidente é um exibicionista do poder.

É assim que eu fundamento a minha resposta, «os Mig’s não vêm», à pergunta do Comandante Calvão.
Não sei se as minhas palavras o tranquilizam ou não, mas mesmo assim, à vista do enorme cordão de gente que às oito horas da manhã enche a marginal da baía, olhando estupefacta para os navios invasores ostensivamente ancorados nas águas da capital, o Comandante espera, mais calmo, meia dúzia de faltosos."

Às 08h10, é ordenada a formatura dos navios em losango, mais apropriada contra ataques aéreos, ao rumo evasivo inicial 240.

"Está toda a gente com os olhos fitos na praia donde se espera ver surgir o grupo faltoso. Depois de cerca de uma hora de tensão exasperante, um grupo de meia dúzia de homens corre ao longo da areia, sob o olhar de uma multidão atónita de tamanha ousadia.
Imediatamente um bote é lançado à água e o 2º-Tenente Rebordão de Brito, adiantando-se a todos, vai até ao rebentar das ondas recolher os últimos invasores.
São cerca das nove horas da manhã. Os navios rumam para o largo sulcando as águas em direcção à liberdade.
Para trás fica um povo a contas com a loucura do seu Presidente que vai utilizar a intervenção portuguesa para eliminar, mais uma vez, todos aqueles que imagina poderem retirar-lhe o poder. Ele vai acusar todos, mesmo os que durante o ataque tentaram organizar uma resistência impossível." (António Lobato)

"Às nove da manhã, eu tinha a cidade nas mãos. O que me faltou foi o apoio aéreo.” (Guilherme de Alpoim Calvão)

A força naval toma o caminho de regresso à Guiné Portuguesa, sem percalços, mantendo no entanto o mais alto grau de prontidão antiaérea até ao pôr do Sol.

Chegam no dia seguinte à ilha de Soga, onde fundeiam às 15h30. Nessa noite nenhum dos ex-prisioneiros de guerra portugueses aproveita para dormir: estão demasiado ocupados a festejar!

Sofrendo apenas 3 mortos e 3 feridos graves, a força de desembarque tinha de facto derrubado o regime de Sékou Touré na capital, destruído parte significativa das suas Forças Armadas (incluindo toda a sua Marinha), libertado 26 prisioneiros de guerra portugueses e 400 prisioneiros políticos guineenses, e infligido cerca de 500 mortos ao inimigo. Os alvos atingidos foram:

Palácio Presidencial
Ministério do Interior
Direcção da Gendarmerie
Casa de Lansana Beavogui
Casa de Sayfoullah Diallo
Quartel da Gendarmerie
Ministério dos Negócios Estrangeiros
Edifício Paternal
Correios e Serviços de Ligação
Estaleiros (navios do PAIGC e da RGC)
Emissora de Boulbinet
Sindicato
Alojamento dos conselheiros militares soviéticos
Comissariado da 6ª Avenida
Antigo estúdio da Rádio Guiné
Pelotão Móvel da Gendarmerie
Arquivos do Parti Democratique de Guinée
Serviços de Segurança / Prisão
Campo Militar de Samory
Estação de Radiotelegrafia
Central eléctrica
Banco Central (BCG)
Federação Conakry I
Campo da Milícia Popular de Conakry
Villa Silly
 

Dos 26 alvos, apenas o Aeroporto ficou intacto. Uma das dificuldades mais sentidas foi constatar-se que muita da informação (cerca de 30%) obtida para a preparação da operação era incorrecta. Por falta de informação atempada, tinha-se deixado escapar os Mig. Apenas um chegou a sobrevoar Conakry, a grande altitude e sem sequer dar sinais de querer atacar os navios. Soube-se mais tarde que os pilotos da Guiné-Conakry ainda estavam a receber instrução e não estavam habilitados a executar acções de combate.

Também falhou a eliminação de Sékou Touré. A informação de que estaria na Villa Silly tinha origem numa fonte dos Serviços Secretos da RFA infiltrada no próprio Palácio Presidencial. Mas, embora nem todos os alvos tenham sido atingidos, o balanço das operações é muito positivo. E mesmo que não tivesse conseguido mais nada, só pela libertação dos prisioneiros de guerra portugueses nas mãos do PAIGC já a Operação Mar Verde teria valido a pena.

Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #7 em: Janeiro 03, 2009, 04:29:46 am »
A Operação Mar Verde demonstrou como um pequeno grupo de tropas bem treinadas pode lançar o caos num país, em ataques cirúrgicos de forças especiais. As tropas portuguesas executaram as suas missões sem o treino específico habitual em raides de operações especiais, uma vez que só tomaram conhecimento da operação horas antes da partida. Ao contrário do inimigo e dos aliados do FLNG, foram para o combate com armas que não eram as regulamentares, muito diferentes das que usavam habitualmente. Tal só foi possível por serem tropas extremamente bem treinadas e experientes. As Forças Armadas, sob a orientação de um militar de excepção como Alpoim Calvão, demonstraram uma iniciativa e uma capacidade de intervenção surpreendente por parte das Forças Armadas de um país pequeno e que na altura fazia face a uma boa dose de isolamento internacional. Com meios extremamente limitados levaram a cabo uma operação ambiciosa e que, em situação igual, se fosse feita por outras potências (como os EUA ou o Reino Unido, por exemplo) normalmente implicaria o emprego de meios avultados. O exemplo seria seguido, em muito menor dimensão pela África do Sul, com raides de comandos contra os países vizinhos. A Operação Mar Verde foi também fonte de inspiração para o livro «Dogs of War», de Frederick Forsyth.

Em 1995, em declarações à RTP, o então Presidente da República da Guiné-Conakry elogiou a invasão do seu país pelos portugueses, vendo-a como uma oportunidade perdida de libertar o país do jugo de Sékou Touré. E disse que os militares portugueses fizeram aquilo que é um desejo natural das Forças Armadas de qualquer país: libertar os seus prisioneiros de guerra.

No seguimento da operação, em 1970, os participantes na Operação Mar Verde e os prisioneiros de guerra libertados em Conakry comprometeram-se a cumprir um pacto de silêncio. Esse pacto foi quebrado por um pequeno número, entre eles o próprio estratego e comandante operacional, Alpoim Calvão, que inclusive publicou um livro sobre os acontecimentos. Outras obras referem esta operação, tendo a estação pública de televisão, a RTP, feito um documentário nos anos 90. No entanto, em 2005, a posição oficial do Estado Português continuava a ser que a Operação Mar Verde nunca existiu.


Bibliografia:
«De Conakry ao MDLP», Guilherme de Alpoim Calvão, Intervenção, Lisboa, 1976
«Grande Repórter RTP: A Operação Mar Verde», RTP, 1995
«Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa - Volume VIII: 1808-1975», Saturnino Monteiro, Livraria Sá da Costa, 1997
«Os Americanos e Portugal - Nixon e Caetano - Promessas e abandono», José Freire Antunes, Difusão Cultural, Lisboa, 1986
«A Guerra de África 1961-1974 - Volume I», José Freire Antunes, Círculo de Leitores, Lisboa, 1995
«Liberdade ou Evasão - O mais longo cativeiro da guerra», António Lobato, Editora Erasmos, Amadora, 1995
«Os Últimos Guerreiros do Império», Rui Rodrigues (coordenação), Editora Erasmos, Amadora, 1995
«Guerra Colonial», Aniceto Afonso, Carlos de Matos Gomes, Editorial Notícias, 2000
«Revista da Armada»


« Última modificação: Janeiro 03, 2009, 04:42:07 am por Lobo »

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #8 em: Janeiro 03, 2009, 18:11:43 pm »
excelente post Lobo!

aos restantes colegas foristas aconcelho uma visita ao forum armada em


http://forumarmada.no.sapo.pt/docs/FA-Marverde/marverde1.html






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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #10 em: Janeiro 04, 2009, 22:45:19 pm »
Lobo, um bom post, mas como só vi a "bonecada" ainda, deixo mais umas fontes de conhecimento sobre operações militares realizadas pelos portugueses em África.
Convém não esquecer que é aconselhável filtrar a informação que nos é apresentada de modo a obtermos apenas o que nos interessa.
Assim como filtrar, convém também pesquisar e confrontar a informação que nos cause dúvidas com outras fontes.
Deixo então dois links com informação diversa sobre o tema.

Fórum dos das Tropas Páraquedistas Portuguesas => http://forumpq.paraquedistas.com.pt
Blog "HISTÓRIAS DA GUINÉ 71-74 - A C.CAC 3491-DULOMBI" => http://wwwccac3491guine7174.blogspot.com/

Ao longo do tempo, fui coleccionando imagens digitalizadas de recortes de jornais e "Acção Psicológica" (propaganda ) das Nossas Tropas que poderei colocar online se achares tal informação digna de nota.

Lobo

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #11 em: Janeiro 05, 2009, 01:02:56 am »
Cyrus,

Vamos a isso !!!

Lobo
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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #12 em: Janeiro 17, 2009, 02:32:31 am »
A Gloriosa História militar Portuguesa não se restringe ao Ultramar... Começou à cerca de 900 anos... ;)

Brevemente conto aqui umas "histórias".
1º Torneio CQB | SS1 | SS2 | SS3 | Phoenix Series - Ghost Recon | Phoenix Series - Chemical Wars | Phoenix Series - Phantom Fury | OP. Combat Patrol | Conflito do Gafe | Rangers2008 | Rangers2009

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #13 em: Janeiro 17, 2009, 02:46:30 am »
Sim tem muito que se diga!
Por exemplo, na Nossa história, sabiam que a cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira onde eu moro, nos Açores, já foi a capital de Portugal durante anos, após a perda da Independência para os Espanhóis (Rei Filipe), sendo que só à 3ª tentativa uma poderosa armada conseguiu com sucesso desembarcar tropas e conquistar a Ilha?
A piada é a famosa História da Brianda Pereira que da 1ª tentativa num local chamado Salga, usou uma manada de touros (que carregaram sobre os Espanhóis) empurrando-os de novo para o mar?!
Também temos o episódio da 1ª Guerra Mundial em que para salvar um barco de passageiros ao largo de São Miguel, um barco convertido em vaso de guerra Português obsoleto aguentou bravamente o ataque de um submarino alemão, tendo o Capitão desse barco morrido na contenda, bem como vários membros da tripulação e se a memória não me falha o barco acabou por ser afundado...

E também temos a batalha da Praia da Vitória (chamada assim por essa batalha e consequente vitória dos Liberais), algo que tentamos recriar uma vez cá em Paintball mas não obtivemos permissão de quem de direito!

Mas além destas locais aqui, temos as campanhas Napoleónicas, Guerra contra os mouros, 1ª Grande Guerra, etc... Temos e devemos ter respeito e orgulho na Nossa longa e interessante história militar!
"Sê humilde quando ganhas! Sê simpático quando perdes!"

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CyruS

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Re:História Militar Portuguesa
« Responder #14 em: Janeiro 20, 2009, 23:12:47 pm »
Camaradas,
Deixo-vos com algumas imagens de recortes que me foram passando pela frente, já digitalizados sobre as Campanhas Africanas.
Espero que gostem e que os guardem, para que a memória não se perca nas brumas do tempo.



Se alguém quiser uma cópia dos ficheiros originais, avise que mando por email. Em breve, disponibilizo exemplos dos folhetos de acção psicológica da época.
Em relação aos créditos das imagens, foram todas recolhidas no fórum dos Pára-quedistas, cujo link já coloquei aqui noutro post.